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Taxa de conveniência ou comissão disfarçada?

No dia 12 de abril deste ano, a terceira turma do STJ decidiu que é ilegal a cobrança da chamada “taxa de conveniência” nas vendas de ingressos pela internet. Boa parte das empresas que operam no setor logo divulgaram suas posições contra a decisão dos ministros. Nenhuma, entretanto, conseguiu de fato demonstrar preocupação com a percepção dos clientes finais, os consumidores dos eventos.

Para justificar a cobrança da taxa de conveniência o argumento das empresas é a economia de tempo e dinheiro com deslocamentos, além da comodidade para o comprador. Essa explicação não esgota o assunto, tampouco responde às insatisfações dos clientes reclamantes.

A lógica é simples, o custo ao realizar as vendas virtualmente é menor para a maioria das empresas que ofertam seus produtos na internet. A venda física, ao contrário, tem custos maiores e menor eficiência dos recursos aplicados. Um canal de e-commerce facilita, em vários aspectos também para o próprio vendedor. O consumidor escolhe e agradece a comodidade. Para o organizador de eventos, especificamente, o benefício de antecipar vendas virtualmente é evidente: Antecipação de receitas, melhor previsibilidade de público, maior interação com os clientes, mais momentos de vendas que são convertidas, diminuição ou eliminação de filas, redução da venda física e sua logística trabalhosa, etc.

Estamos em plena revolução digital, estar presente na WEB e vender virtualmente é obrigação de qualquer empresa. Afinal, você lembra de ter pago taxas de conveniência percentuais em outros comércios virtuais? Lembra de alguma taxa cuja justificativa era apenas estar ofertando a compra on-line? Eletrodomésticos, livros, roupas, passagens ou qualquer outra coisa. A realidade é o oposto disso, na maioria das vezes o produto é mais barato quando comprado on-line. Os ofertantes querem incentivar essa modalidade pois todos ganham.

Liberdade de escolha

Alguém poderia citar o caso da empresa Decolar.com, por exemplo que cobra uma comissão ou taxa de serviço para cada venda realizada através de seu site. O que é justo e diferente. Primeiro porque ela não tenta justificar o valor cobrado dizendo ser por conveniência. Essa conveniência existe, mas é a característica de tudo que é on-line. Em segundo lugar porque os mesmos produtos e serviços ofertados pela Decolar são oferecidos nos sites das empresas diretamente, sem comissões ou taxas. Como no caso das passagens aéreas, você pode comprar sem intermediadores se preferir. O consumidor não se sente lesado também pelo fato de outras empresas similares a Decolar realizarem a intermediação dos mesmos produtos. Ou seja, existe concorrência.

Esse não é o caso das chamadas ticketeiras. No mercado dos ingressos on-line muitas vezes a oferta é realizada através de apenas uma empresa. A conveniência é taxada percentualmente e aplicada em cada ingresso, mesmo que tenham sido adquiridos em uma só compra. Se a justificativa da taxa é a facilidade de não precisar se deslocar até um ponto de venda físico, como explicar a percentualidade? A conveniência de comprar um ingresso de R$ 100 é a mesma para um ingresso de R$ 400. O valor cobrado, porém salta de R$ 10 para R$ 40, em média. Da mesma forma, ao comprar dois ingressos, por que o consumidor deve pagar a taxa duas vezes? Nesse caso o deslocamento para realizar a compra fisicamente seria apenas um.

Reflexão

Será que devemos continuar evitando esses questionamentos e as insatisfações dos clientes? Não faz mais sentido cobrar taxas e dizer que é por conta da conveniência de comprar virtualmente, e menos ainda cobrar isso de forma percentual. A taxa de conveniência, na realidade, esconde um comissionamento. O valor que o cliente final enxerga, para isso, está se mostrando insuficiente e ele acaba pagando por mera falta de opção ou desconhecimento, quando não deixa para comprar no dia e hora do evento.

Pouco importa qual seja o desfecho judicial dessa questão, as ticketeiras precisam ser mais transparentes com o público. Essa reflexão deve ser feita.